Camaradas,
As delícias da primavera, seu frescor e sua paixão são memórias. Algumas mais vagas e distantes que outras. O frescor é muito vago...
Está tão calor que até os copos de chope derretem.
A paixão é uma saudade...
(eu adoro esses dois aí. e essa música é impressionante: como o cara conseguiu colocar tantas sílabas em tão poucos tempos?)
tendo dito, até!
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Calor, muito calor
Tags: amor, calor, paixão, primavera, Rio de Janeiro
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Cotidiano 2
Camaradas,
Falando em surrealismo do cotidiado, registrei a prova da minha incapacidade de ler coisas. Ou talvez do meu analfabetismo. Várias vezes incorri no erro de colocar adoçante na batata frita. É simples: as marcas de pozinhos têm, em geral, três tamanhos. Um, mais esticado e maior, destinado a qguardar açucar. Os outros dois, com formatos próximos a um quadrado, menores, guardam adoçante e sal. Mas são embalagens quase do mesmo tamanho e quase das mesmas cores.
Aposto que outros tiveram experiências semelhantes, causadas pelo sarcasmo dos fabricantes de saquinhos que gostam de debochar dos pobres consumidores incautos. (ou pelo excesso de chope).
Por um mundo sem enganação! Pelo fim da exploração do homem pelo homem! Pelo fim da exploração do homem pela mulher! Pela diferenciação clara dos saquinhos de sal e adoçante!
Tendo dito, até!
(Registre-se que a punjante economia fluminense é incapaz de produzir sal. Importa-se da metrópole)
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Fora do Eixo - 2
Camaradas,
Há coisas que me deixam fora do eixo. Muitas coisas.
O Rio me deixa um pouco fora do eixo...
E o feriado se anuncia...
E amanhã é sábado!
Macho e fêmea os criou
Genesis, 1, 27
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, o Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra;
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário.
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias.
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos.
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia.
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias.
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos;
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade.
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo...
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente,
Porque era sábado.
tendo dito, até!
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Mais nova lição carioca
Camaradas,
O Rio de Janeiro é uma cidade cheia de encantos e cheia de pequenas curiosidades. Também, é cheia de grandes peculiaridades que remontam suas origens da colônia portuguesa.
Muito me espantei ao visitar o apartamento de um amigo, que habita o número 208 de determinado edifício. Fui alertado pelo porteiro que deveria pressionar o botão “4” para chegar ao andar correspondente ao apartamento que visitaria. Uma lógica um tanto estranha. De onde eu venho, os números dos apartamentos se referem, de alguma maneira, ao andar onde estão localizados. 208, portanto, deveria ser no segundo andar. Ou talvez no vigésimo. Eventualmente, talvez até no oitavo. Mas nunca imaginaria no quarto.
Passado meu espanto inicial, vi a seguinte placa, que atiçou ainda mais minha curiosidade.
(melhor que essa placa, só aquela “antes de entrar no elevador, certifique-se que o mesmo encontra-se parado no andar”)
Achei muito inteligente: o zero (sim, os cariocas conhecem essa inovação! Ponto pra eles! Os babilônios – a última civilização humana nos trópicos - não conheciam...), refere-se ao andar no nível da rua. Seqüencialmente, seguindo os números inteiros, cada andar tem como referência um número maior quando está em cima. De tal forma que o andar “5” fica exatamente um acima do “4”. Espantoso.
Ora, é louvável estabelecer que todos os andares sejam numerados seqüencialmente e sem letras! Sempre me confundi com a inexistência do 13º andar em vários edifícios novaiorquinos, e odeio – de verdade – aqueles andares “L”, “S”, “M”, “SL” ou “LO”, ou qualquer outra combinação que tente se referir ao nome do andar e impede que eu entenda afinal qual fica em cima e qual fica em baixo. E principalmente, qual é a saída.
Mas a numeração dos apartamentos, por algum motivo transcendental, não corresponde de maneira alguma ao andar onde estão localizados. Há uma fórmula matemática para definir o número do apartamento em relação ao andar: seja X o andar, e Y o primeiro algarismo do número do apartamento, a relação entre X e Y é: X = Y+2, para todo X >3 Os cariocas devem ser grandes matemáticos.
Para minha feliz surpresa, ao descer no quarto andar, estava de frente à porta 208. Ufa. Não entendi, mas deu certo. É por isso que a principal lição carioca é: nunca confie na lógica, nas regras ou nas placas. Pergunte aos locais.
Na próxima visita, perguntarei ao porteiro se no 3º pavimento encontra-se a Pontifícia Universidade Católica...
Tendo dito, até!
domingo, 21 de junho de 2009
O filé de brontossauro
Camaradas,
O primeiro dia de inverno mostrou-se invariavelmente quente e aprazível na cidade do Rio de Janeiro. Na verdade, são os melhores dias por aqui: pouca chuva, pouca umidade, pouco calor, muito sol. Sábios eram os da corte imperial que passavam de maio a setembro por aqui e o resto do ano lá na serra petropolitana, onde o clima aceita humanos.
Mesmo fora do verão, a vida boêmia jamais perderá seu vigor! Enquanto existirem os otários, existirão os malandros! Enquanto existir o Estado, existirá o funcionário. Enquanto existir o INSS existirá o aposentado. E se tudo continuar assim, existiremos nós: os que gostam de viver.
Fred e sua família, pedindo um filé para viagem!
Há coisas deliciosas guardadas, escondidas nos bairros “que não figuram no mapa” do Rio de Janeiro. Viva o Cachambi. Trata-se de um bairro suburbano, agradável como muitos outros, que acabou ficando distante do centro dinâmico da balneário decadente, cemitério de fortunas. O Rio é um pouco autodestrutivo, percebo.
Na companhia adorável de outros dois sábios, Isaac e Lilith, aventurei-me pelo tempo perdido e conheci o delicioso filé de brontossauro. Uma iguaria que Fred Flinstone deixou como legado para toda a humanidade. Mas a aventura gastronômica foi bastante complexa, então vamos por partes, como diria Jack, o estripador.

Sabor! Muito sabor!
A começar pelo chope. Gelado. Com um belo colarinho. Ao estilo dos melhores servidos lá na capital. Há quem diga que depois do túnel Rebouças já começa a área de influência paulista. Talvez isso seja verdade. O chope era delicioso.
Bolinhos, ah os bolinhos! Na falta dos sugeridos de carne seca, experimentamos os de bacalhau. Nas palavras de Issac “só perdem para os de senhora minha avó”, grande dama da gastronomia portuguesa – vale registrar.
Sim, é isso aí!
Já que estávamos por lá, provamos também os bolinhos de feijoada. Uma inovação feita à base de massa de feijão (não como aquela do acarajé, uma triturada com a casca, preta), e recheada de couve mineira, carnes e outras coisas dessas que vêm numa feijoada. Talvez o melhor bolinho que já comi nessas paragens.
Não suficientemente contentes, provamos também o incrível pastel de camarão. Saboroso, temperado. Camarões grandes. Uma coisa fora dos padrões sulistas acostumados com o básico (e até outrora feliz) pastel do Belmonte. O Cachambi nos apresentou um mundo todo novo. Uma felicidade gastronômica impensável.

O gourmet que seleciona os ingredientes
Enfim, chegamos no motivo da visita: o filé de brontossauro. Uma coisa deliciosa preparada por Seu Pança, um simpático rapaz que fez questão de nos apresentar todos os ingredientes e a técnica de preparação do acepipe. Um tratamento que, de cá do túnel, jamais foi vivenciado. O Cachambi é realmente um lugar da felicidade.
Sabor. Muito sabor. O filé de brontossauro, tecnicamente falando, é o conjunto de carnes e gorduras que envolvem um grande osso. Provavelmente oriundo da costela do extinto animal. É difícil descrever em palavras. Mas a sensação é algo orgástica. Algo transcendental.

Nós, distintos sulistas quase turistas, nos deleitamos com tanta felicidade material. Mais que isso, percebemos no cardápio ainda algumas opções por serem testadas: a palmeira recheada de camarões (algo como um palmito de um metro e meio, aberto com muito recheio); os tais bolinhos de carne seca e, por fim e não por menos; o “enfarto completo”, conjunto de churrascos cujo nome fala por si.
Nossos horizontes foram alargados. O Rio jamais será o mesmo.
Voltaremos!
Tendo dito, até!
terça-feira, 9 de junho de 2009
Cariocas em São Paulo
Camaradas,
Vi hoje uma foto muito curiosa. Eu fico feliz com a integração entre as duas maiores cidades do País e aguardo ansioso a construção do Trem-Bala. Mas o choque de culturas é evidente: quando um carioca chega em São Paulo, acha que pode estacionar na calçada, como faz no Rio...
Tendo dito, até!
sábado, 6 de junho de 2009
Viradão Culturalzão
Camaradas,
O Rio tem uma grande quantidade de peculiaridades. Uma delas é a necessidade de usar aumentativos. Todos os times de futebol locais são referenciados em sua versão grandona: mengão, fluzão, vascão e fogão. Todas as iniciativas divertidas que outras cidades experimentaram, quando são introduzidas aqui também recebem tratamento aumentativo.
A “Restaurant Week”, uma semana que alguns restaurantes bacanudos preparam menus especiais a preços convidativos que acontece em diversas cidades do mundo, no Rio dura duas semanas.
Notem a beleza, antiguidade e tamanho da geladeira do tradicional Bar Brasil, na Lapa
O “comida di buteco”, competição entre quitutes dos bares tradicionais de Belo Horizonte, que em São Paulo recebeu o nome do patrocionador de “Boteco Bohemia”, em geral dura cerca de quinze dias. No Rio, dura um mês.
A última novidade é a introdução da “Virada Cultural”, celebração de um monte de atividades culturais espalhadas pela cidade durante uma noite, que faz um sucesso tremendo em São Paulo e no interior daquele estado. No Rio, a virada na verdade são duas. Começa na sexta e termina no domingo.
Nunca é demais lembrar que o carnaval por aqui dura umas cinqüenta semanas por ano...
Tendo dito, até!
Por sugestão do amigo leitor, aí vai o detalhe da geladeira, e seu motor adaptado (no começo, usava-se barras de gelo)
sexta-feira, 6 de março de 2009
Ode à Felicidade

Camaradas,
É com grande satisfação que repasso a notícia que vi no Globo, jornalzinho local do balneário decadente: Chico e Alaíde estão de volta, com chope e bobozinhos (além de outros quitutes).
Estou tão feliz que não tenho palavras. Infelizmente vou demorar uns dias pra conferir pessoalmente, mas fica aqui a direção: “Chico e Alaíde”, Av.a Bartolomeu Mitre com a Rua Dias Ferreira. Tel 21 2512-0028.
Tendo dito, até!
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Mais sobre o Carnaval no Rio
caros Sábios,
O Rio, como se sabe, enche de gringos e gringas neste período do ano. Ontem mesmo havia uma excursão na rua, todos da terceira idade, de boné. Mas será que eles sabem onde ir ou são simplesmente enganados pelas agências de turismo?
Às vezes é necessário um guia competente para mostrá-los do que é feito o carnaval no Rio.
Sem mais delongas, deixo-os com Arnold Alois Schwarzenegger, em sua passagem inesquecível pelo país do carnaval.
A primeira noite de um homem

Camaradas,
Há poucas coisas tão emocionantes como a primeira noite. É um teste. É como um ritual de iniciação a uma nova vida. A primeira noite em um novo lar é especialmente importante. É o teste final para a aprovação (ou não) de um longo processo de escolhas, que inicia-se no mercado imobiliário e segue pelas lojas de móveis e colchões.
Finalmente instalado (mais uma vez e, quem sabe, de maneira algo definitiva) na cidade maravilhosa, passei minha primeira noite no novo lar. Água quente ainda é uma novidade. Não se pode confiar nos serviços públicos cariocas. Ar condicionado, por outro lado, é um desejo futuro ainda distante. Por isso, sou obrigado a dormir com as janelas escancaradas. Tem seu lado voyer, admito.
Mas tem também seus encantos. Ontem, a lua minguante me acompanhou, desde seu nascer até sumir no horizonte da janela. Um sinal, um aceno de carinho, de uma cidade linda por natureza (e talvez só por ela) a um migrante insistente.
A felicidade é como a gota de orvalho, hoje logo cedo o sol já a evaporou. Queimando meus pés às 6h20 da manhã. Namorar é sempre um pouco difícil.
Tendo dito, até!
(pra dar um gostinho...)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Luz no fim do túnel
Camaradas,
Vi no jornalzinho local uma notícia muito animadora: Dona Alaíde vai abrir um bar com o velho Chico. Será o novo templo. Revigorei meu credo.
tendo dito, até!
domingo, 13 de abril de 2008
Reflexões teológicas – Parte II
É evidente que alguns leitores assíduos de nossa sabedoria ficaram um pouco espantados por eu ter indicado a barata – um ser notoriamente nojento – como o escolhido de Deus para reinar sobre a Terra. Reitero que isso é uma dedução empírica livre de arbitrariedades.
Mas o Criador também reservou um lugar especial para os humanos sua segunda espécie favorita. Somos bem-quistos por dois motivos principais: a completa incompatibilidade entre o que pensamos e a forma pela qual agimos e, em menor grau, porque somos muito úteis à sobrevivência e predomínio das baratas na Terra.
Dessa forma, o Criador foi muito benevolente conosco. Criou a baía de Guanabara, o Corcovado, o Pão-de-Açúcar, a Lagoa e um sem-número de composições geográficas e que deram à região um aspecto de Éden. Sim, Ele escolheu o Rio para ser um portal para a felicidade dos humanos.
Infelizmente, ao deixar a livre-iniciativa humana agir, viu seu paraíso tropical ser tomado por uma cidade insalubre e urbanamente desagradável. Deus insistiu. Criou Ipanema. E durante muito tempo ali foi o verdadeiro portal da redenção. Palco da Garota e da bossa-nova, Ipanema foi por um bom tempo o lugar favorito de Deus e dos humanos.
Mas como tudo, demos um jeito de estragar. O bom Deus, então, criou o Leblon – uma espécie de mini-Ipanema livre da proximidade com a – argh! – princesinha do mar Copacabana. Lá o Criador colocou uma representação comercial do paraíso. É como se fosse um estande de vendas de apartamentos novos, onde se pode ver a planta, uma maquete e ficar sonhando com o futuro feliz da sua família num três-quartos-com-dependência-lazer-completo-e-espaço-gourmet. A diferença é que não espírito pequeno-burguês. Falo, é claro, do Bracarense.
Ah, o Bracarense. Lá a eu sou feliz.
Lá sou amigo do Rei. Dona Alaíde é a profeta que traz as palavras de Deus por meio de seus quitutes e delicinhas. O néctar é servido gelado e todos se deliciam com o paraíso na Terra.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Novas lições cariocas
Camaradas,
Depois de um longo período de férias, este sábio que vos escreve retorna com um pouco mais de sabedoria. O tema de hoje é o Rio e suas pequenas curiosidades irritantes. Sou e sempre serei um entusiasta dessa cidade onde o calor engrossa o sangue e impede as funções motoras e intelectuais. É um lugar para sentar e tomar chopp, que aliás deveria receber um nome diferente por aqui para não ser confundido com aquele que se toma em São Paulo. São coisas evidentemente diferentes e incomparáveis. Dar-lhes o mesmo nome só gera confusões desnecessárias entre os povos.
Alguns pequenos detalhes passam desapercebidos pelos turistas de primeira viagem, mas para um migrante que retorna à cidade maravilhosa, tais coisas causam impacto de imediato. O primeiro deles, para quem chega pela via Dutra, é o curioso outdoor tentando vender terrenos num adorável bairro da baixada: “Ainda é bom comprar em Vilar dos Teles”, complementada por uma faixa “Para revender”. Com isso, imagino que deve ser um mico ficar com qualquer propriedade por lá...
Outras pequenas aventuras acontecem com os visitantes á vacinados, que sabem que nessa cidade toda regra é feita para ser burlada de alguma forma. Já escrevi antes nesse blog que o Rio é a cidade do malandro. E a malandragem é um conceito dialético: a existência do malandro depende da existência do otário, e vice-versa. Todas as relações humanas, portanto, incluem a tentativa mútua entre as partes em fazer o outro de otário, para conseguirem se auto-proclamarem malandros.
Muito bem, a disputa não acontece apenas entre os civis, mas também entre os cidadãos e o Estado. A todo tempo. Minha penúltima aventura foi estacionar numa tranqüila rua, sem nenhuma espécie de sinalização indicando restrição ao estacionamento. Para minha surpresa, no dia seguinte meu possante com placa paulistana estava em outra esquina, parado em fila dupla. Os feirantes levantaram-no e o trocaram de posição para que a feira pudesse acontecer sem problemas. Ao havia, curiosamente, nenhuma marca de depredação ou multa no carro. Foi uma transposição civilizada. Daí a lição número 1: pergunte aos locais se você pode largar seu carro na rua. A sinalização nunca é suficiente.
Dois dias depois, a última aventura, devida inteiramente à minha completa incapacidade de compreender lições da vida. Incorrer em erro é normal. Repetir é estupidez. O calor engrossa o sangue, e me faz bem estúpido. Numa outra esquina, também sem sinalização larguei meu carro. Hoje, passando por lá não o vi. O fenômeno da transposição se repetiu, mas dessa vez liderado por funcionários do Estado (sete-Rio, com se diz por aqui) que o levaram para algum lugar quase tão distante quanto Vilar dos Teles. Daí a lição número 2: pergunte aos locais se você pode largar seu carro na rua. A sinalização nunca é suficiente.
Se eu consegui importar de volta meu carro, prometo que aprenderei as duas lições.
domingo, 20 de janeiro de 2008
Cadê o rio?
Camaradas,
Hoje é dia de São Sebastião, santo padroeiro da cidade
maravilhosa. Esse santo homem era soldado romano e, ao que tudo indica, dava um jeitinho para ajudar os amigos cristãos a se livrarem da perseguição do império. Naquela época a impunidade ainda não reinava e, pobre santo, foi condenado à morte por flechadas. Até hoje é representado com umas flechas fincadas pelo corpo (aí ao lado, na versão de Boticelli).
São Sebastião é padroeiro do Rio por ser um dos primeiros malandros que se tem registro. Dizem à voz pequena que ele fazia vista grossa para cristãos que fugiam, mas para que eles sorrissem, precisavam fazer o homem sorrir também.
O Rio é a terra onde a existência é dialética: ou você é malandro ou é otário. E essa definição é dinâmica, a cada hora é possível ser um ou outro, a disputa é constante. Outro dia mesmo, sentado num bar numa mesa numerosa o garçom chamou minha atenção para que eu ficasse de olho nele, porque ele poderia marcar mais chopps do que os de fato servidos! Ora, que garçom simpático: ao perceber meu evidente sotaque paulista, esclareceu as regras do jogo estabelecendo que para que ele não fosse malandro, eu precisaria me esforçar para não ser otário.
Mas o tema do post de hoje é outro. Um amigo gringo, mais gringo que eu, ao olhar o mapa do Rio perguntou: “mas afinal, cadê o rio?”. É evidente que se a cidade chama-se Rio de Janeiro, é necessário que lá existisse um rio.
Confesso que do alto da minha sabedoria eu não soube responder no momento àquela dúvida existencial. Mas fui pesquisar. Descobri que a malandragem carioca vem de tempos remotos. Estácio de Sá foi o primeiro malandro carioca. Querendo se livrar dos índios e dos franceses, fundou a cidade do Rio de Janeiro com o lema "Recte Rem Publicam Gerere" (Gerir a Coisa Pública com Retidão, sic). Chegando à baía de Guanabara em fevereiro de 1565, achou que o nome para a nova cidade “Baía de Fevereiro” não tinha o apelo turístico necessário. Fingiu-se desinformado e declarou que chegara em janeiro e que aquilo era na verdade um riozão. Ficou “Rio de Janeiro”.







